
Cunhais, vãos e juntas: onde o reboco fissura primeiro
Quando alguém nos chama para ver fissuras num reboco com um ou dois anos, sabemos quase sempre onde as vamos encontrar antes de sair do carro: a partir dos cantos superiores das janelas, nos cunhais da casa, por baixo das caixas de estore e na linha onde a parede de tijolo encontra um pilar de betão. Não é coincidência nem má sorte. São os pontos onde a parede trabalha mais e onde o reboco, se não levar reforço, é o elo que cede. A boa notícia é que se resolve antes, e barato.
Porque é que a fissura escolhe sempre os mesmos sítios
Um reboco é uma camada fina e rígida colada a um suporte que se move. O suporte move-se por três razões: dilata e contrai com a temperatura, retrai enquanto seca, e assenta ligeiramente com a estrutura do edifício. Enquanto esse movimento é uniforme, o reboco acompanha. O problema está onde o movimento deixa de ser uniforme.
É isso que acontece nos pontos que enumerámos. Num canto de janela, a parede é interrompida e a tensão concentra-se na diagonal a partir do vértice, que é exatamente a direção em que essas fissuras aparecem. Num cunhal, duas fachadas com exposições ao sol diferentes encontram-se e dilatam de forma diferente. Numa caixa de estore, há um elemento de material distinto embutido numa parede de tijolo. E na junção de tijolo com betão, dois materiais com comportamentos térmicos diferentes estão colados lado a lado, e a fissura desenha-se ao longo da junta.
Ou seja: a fissura não é um defeito da argamassa. É a argamassa a denunciar uma descontinuidade que ninguém tratou.
Onde metemos rede de fibra de vidro, sempre
A resposta técnica a essas descontinuidades é armar o reboco, isto é, embeber uma rede de fibra de vidro na espessura da argamassa para distribuir a tensão em vez de a deixar concentrar-se numa linha. As boas práticas de fiscalização de revestimentos exteriores são explícitas sobre os pontos onde esse reforço é obrigatório:
- Zonas de transição entre materiais diferentes do suporte, por exemplo onde a alvenaria de tijolo encontra um pilar ou uma viga de betão.
- Vértices dos vãos, isto é, os cantos das janelas e das portas, com a rede colocada na diagonal a partir do canto.
- Cunhais, as arestas verticais onde duas fachadas se juntam.
- Caixas de estore, por serem um corpo estranho embutido na parede.
- Panos esbeltos, ou seja, faixas de parede estreitas entre vãos, que têm pouca massa para resistir.
Há ainda um critério que tem pouco que ver com o sítio e tudo que ver com a espessura: acima de cerca de 2 cm de reboco, as camadas devem ser reforçadas com rede, independentemente de estarem ou não num ponto crítico. É frequente esquecer-se isto em paredes muito desalinhadas, que são precisamente as que levam mais massa.
A rede certa e, sobretudo, no lugar certo
Duas coisas separam um reforço que funciona de um que serve de nada, e nenhuma delas é a marca do material.
A primeira é o tratamento da rede. O reboco de cimento é alcalino e uma rede de fibra de vidro comum degrada-se nesse ambiente ao longo do tempo, deixando de reforçar o que quer que seja. A rede tem de ter tratamento anti-alcalino. As redes de reforço de reboco correntes têm malha quadrangular na ordem dos 10 por 10 mm, precisamente para a argamassa atravessar e envolver o fio.
A segunda, e é aqui que vemos falhar mais, é a posição. A rede tem de ficar embebida dentro da espessura do reboco, envolvida em argamassa pelos dois lados. Uma rede pregada à parede e depois coberta não reforça: fica na interface, funciona como plano de separação e pode até piorar a aderência. Aplica-se uma primeira passagem de argamassa, assenta-se a rede sobre o fresco, pressiona-se para ela mergulhar, e cobre-se. Quem vê a rede no fim é porque ela não está onde devia.
Nos cantos vivos, a rede costuma andar acompanhada de cantoneira, que dá a aresta reta e protege o canto do choque. São coisas diferentes com funções diferentes: a cantoneira faz a geometria e resiste ao toque, a rede distribui a tensão. Uma não substitui a outra.
Juntas: aceitar que a parede se move
Reforçar não basta em panos grandes. Numa fachada extensa, a alternativa a deixar o reboco fissurar onde lhe apetece é decidir nós onde ele se pode abrir, com juntas de trabalho ou alhetas que interrompem a continuidade da camada. Isto é mais importante nas fachadas orientadas ao quadrante sul e poente, que são as que apanham maior amplitude térmica ao longo do dia, e por isso as que mais dilatam e contraem.
A junta feita de propósito é uma linha limpa, prevista no desenho da fachada, que ninguém lê como defeito. A fissura que aparece por falta dela é uma linha torta a atravessar a parede, e essa o cliente vê sempre.
E quando a fissura já está lá
Nesse caso a primeira decisão não é estética, é de diagnóstico: a fissura está estabilizada ou continua a trabalhar? Uma fissura fina, com anos, que não abriu mais, trata-se abrindo, limpando, preenchendo com material compatível e reforçando localmente com rede antes de refazer o acabamento. Uma fissura que continua a abrir, ou que atravessa a parede de lado a lado, não é assunto de acabamento e não se resolve com massa: é preciso perceber a causa na estrutura primeiro, e aí o trabalho é de outra natureza.
Tapar uma fissura ativa com massa e pintar por cima é o que quase sempre já foi tentado antes de nos chamarem. Volta ao mesmo sítio dentro de um ano, e o cliente fica com a ideia de que o problema não tem solução, quando o que faltou foi tratar a causa.
Se está a construir ou a recuperar no Grande Porto e quer o reboco feito com o reforço nos pontos certos, ou se tem fissuras que já voltaram depois de reparadas, falamos consigo e vemos a parede antes de dar opinião. HR Construções, Olival, Vila Nova de Gaia. Contacto pelo 918 874 688 ou geral@hrconstrucoes.pt.
Fontes
- Metodologia da fiscalização de obras, revestimento exterior: pontos de reforço obrigatório do reboco (FEUP)
- Rede de reforço para reboco, malha e tratamento anti-alcalino (Secil)
- Ficha técnica de reboco com fibras para reduzir a fissuração (Secil)
- Anomalias e estratégias de reabilitação de paredes (FEUP)
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