Cunhais, vãos e juntas: onde o reboco fissura primeiro
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Cunhais, vãos e juntas: onde o reboco fissura primeiro

26 de setembro de 20268 min de leitura

Quando alguém nos chama para ver fissuras num reboco com um ou dois anos, sabemos quase sempre onde as vamos encontrar antes de sair do carro: a partir dos cantos superiores das janelas, nos cunhais da casa, por baixo das caixas de estore e na linha onde a parede de tijolo encontra um pilar de betão. Não é coincidência nem má sorte. São os pontos onde a parede trabalha mais e onde o reboco, se não levar reforço, é o elo que cede. A boa notícia é que se resolve antes, e barato.

Porque é que a fissura escolhe sempre os mesmos sítios

Um reboco é uma camada fina e rígida colada a um suporte que se move. O suporte move-se por três razões: dilata e contrai com a temperatura, retrai enquanto seca, e assenta ligeiramente com a estrutura do edifício. Enquanto esse movimento é uniforme, o reboco acompanha. O problema está onde o movimento deixa de ser uniforme.

É isso que acontece nos pontos que enumerámos. Num canto de janela, a parede é interrompida e a tensão concentra-se na diagonal a partir do vértice, que é exatamente a direção em que essas fissuras aparecem. Num cunhal, duas fachadas com exposições ao sol diferentes encontram-se e dilatam de forma diferente. Numa caixa de estore, há um elemento de material distinto embutido numa parede de tijolo. E na junção de tijolo com betão, dois materiais com comportamentos térmicos diferentes estão colados lado a lado, e a fissura desenha-se ao longo da junta.

Ou seja: a fissura não é um defeito da argamassa. É a argamassa a denunciar uma descontinuidade que ninguém tratou.

Onde metemos rede de fibra de vidro, sempre

A resposta técnica a essas descontinuidades é armar o reboco, isto é, embeber uma rede de fibra de vidro na espessura da argamassa para distribuir a tensão em vez de a deixar concentrar-se numa linha. As boas práticas de fiscalização de revestimentos exteriores são explícitas sobre os pontos onde esse reforço é obrigatório:

  • Zonas de transição entre materiais diferentes do suporte, por exemplo onde a alvenaria de tijolo encontra um pilar ou uma viga de betão.
  • Vértices dos vãos, isto é, os cantos das janelas e das portas, com a rede colocada na diagonal a partir do canto.
  • Cunhais, as arestas verticais onde duas fachadas se juntam.
  • Caixas de estore, por serem um corpo estranho embutido na parede.
  • Panos esbeltos, ou seja, faixas de parede estreitas entre vãos, que têm pouca massa para resistir.

Há ainda um critério que tem pouco que ver com o sítio e tudo que ver com a espessura: acima de cerca de 2 cm de reboco, as camadas devem ser reforçadas com rede, independentemente de estarem ou não num ponto crítico. É frequente esquecer-se isto em paredes muito desalinhadas, que são precisamente as que levam mais massa.

A rede certa e, sobretudo, no lugar certo

Duas coisas separam um reforço que funciona de um que serve de nada, e nenhuma delas é a marca do material.

A primeira é o tratamento da rede. O reboco de cimento é alcalino e uma rede de fibra de vidro comum degrada-se nesse ambiente ao longo do tempo, deixando de reforçar o que quer que seja. A rede tem de ter tratamento anti-alcalino. As redes de reforço de reboco correntes têm malha quadrangular na ordem dos 10 por 10 mm, precisamente para a argamassa atravessar e envolver o fio.

A segunda, e é aqui que vemos falhar mais, é a posição. A rede tem de ficar embebida dentro da espessura do reboco, envolvida em argamassa pelos dois lados. Uma rede pregada à parede e depois coberta não reforça: fica na interface, funciona como plano de separação e pode até piorar a aderência. Aplica-se uma primeira passagem de argamassa, assenta-se a rede sobre o fresco, pressiona-se para ela mergulhar, e cobre-se. Quem vê a rede no fim é porque ela não está onde devia.

Nos cantos vivos, a rede costuma andar acompanhada de cantoneira, que dá a aresta reta e protege o canto do choque. São coisas diferentes com funções diferentes: a cantoneira faz a geometria e resiste ao toque, a rede distribui a tensão. Uma não substitui a outra.

Juntas: aceitar que a parede se move

Reforçar não basta em panos grandes. Numa fachada extensa, a alternativa a deixar o reboco fissurar onde lhe apetece é decidir nós onde ele se pode abrir, com juntas de trabalho ou alhetas que interrompem a continuidade da camada. Isto é mais importante nas fachadas orientadas ao quadrante sul e poente, que são as que apanham maior amplitude térmica ao longo do dia, e por isso as que mais dilatam e contraem.

A junta feita de propósito é uma linha limpa, prevista no desenho da fachada, que ninguém lê como defeito. A fissura que aparece por falta dela é uma linha torta a atravessar a parede, e essa o cliente vê sempre.

E quando a fissura já está lá

Nesse caso a primeira decisão não é estética, é de diagnóstico: a fissura está estabilizada ou continua a trabalhar? Uma fissura fina, com anos, que não abriu mais, trata-se abrindo, limpando, preenchendo com material compatível e reforçando localmente com rede antes de refazer o acabamento. Uma fissura que continua a abrir, ou que atravessa a parede de lado a lado, não é assunto de acabamento e não se resolve com massa: é preciso perceber a causa na estrutura primeiro, e aí o trabalho é de outra natureza.

Tapar uma fissura ativa com massa e pintar por cima é o que quase sempre já foi tentado antes de nos chamarem. Volta ao mesmo sítio dentro de um ano, e o cliente fica com a ideia de que o problema não tem solução, quando o que faltou foi tratar a causa.

Se está a construir ou a recuperar no Grande Porto e quer o reboco feito com o reforço nos pontos certos, ou se tem fissuras que já voltaram depois de reparadas, falamos consigo e vemos a parede antes de dar opinião. HR Construções, Olival, Vila Nova de Gaia. Contacto pelo 918 874 688 ou geral@hrconstrucoes.pt.

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